sexta-feira, 9 de maio de 2025

 



Demonização do Feminino e Discurso Religioso: Uma Análise Histórico-Simbólica da Subalternização da Mulher no Ocidente

Das raízes históricas e simbólicas da associação entre o feminino e o mal no Ocidente, especialmente no contexto da religião cristão, a partir da análise do Malleus Maleficarum (Kramer & Sprenger, 1486) e de fragmentos bíblicos, busca-se compreender como o discurso “religioso” contribuiu para a construção de uma imagem demonizada da mulher. A abordagem teórica fundamenta-se nas contribuições de Pierre Bourdieu (poder simbólico) e Michel Foucault (análise do discurso), além do conceito de cultura proposto por Clifford Geertz. Tais discursos legitimaram estruturas de dominação patriarcal, moldando práticas sociais e imaginários coletivos que ainda reverberam na contemporaneidade.

 As representações do feminino ao longo da história, sobretudo em seu campo de interação com a religião, estão marcadas por construções simbólicas e discursivas que consolidaram uma associação da mulher com o mal. Essa associação é amplamente visível em mitos, narrativas religiosas e estruturas sociais que perpetuam a misoginia.  Aqui temos como objetivo analisar como se estruturou o discurso de inferiorização da mulher no Ocidente, tendo como eixo central a obra Malleus Maleficarum, publicada em 1486, e os discursos dos tribunais do Santo Ofício durante a Inquisição.

Demonização do Feminino na Tradição Cristã

A ligação entre mulher e pecado encontra sua base na narrativa bíblica do Pecado Original, no livro de Gênesis, tem a figura de Eva como responsável pela queda da humanidade onde consolidou-se como um símbolo arquetípico da culpa feminina. Essa interpretação foi reiterada por tratados de demonologia medievais, que reforçaram a imagem da mulher como aliada do demônio e agente da desordem moral e espiritual.

 

Cultura e Repetição de Significados

A disseminação dessas ideias não ocorreu de maneira isolada, mas foi sustentada e propagada pela cultura, compreendida como um sistema de significados partilhados que orienta práticas, crenças e valores. A cultura, nesse sentido, é o meio pelo qual os discursos encontram eco e se tornam instrumentos de estruturação social.

 A misoginia, portanto, não se resume a um fenômeno religioso, mas cultural, na medida em que molda normas, papéis e expectativas sociais.

Subalternização e Poder Simbólico

Pierre Bourdieu (1989; 2002) oferece instrumentos teóricos para compreender como tais discursos se cristalizam em estruturas simbólicas de dominação. A noção de poder simbólico revela como a autoridade masculina se legitima como natural ou divina, enquanto o feminino é relegado à inferioridade. Essa estrutura é reforçada por práticas institucionais, discursos religiosos e modelos normativos de comportamento.

 

Discurso e Hierarquia de Gênero

A análise do discurso, conforme proposta por Michel Foucault (1996), permite entender como os discursos religiosos participaram da construção da ordem simbólica das coisas, instituindo hierarquias entre masculino e feminino. A mulher subversiva — a bruxa, a herege, a sábia — torna-se alvo de perseguição por representar uma ameaça à ordem estabelecida. Os fragmentos do Gênesis e o conteúdo do Malleus Maleficarum foram amplamente utilizados como fundamentação para justificar a submissão feminina e a eliminação daquelas que fugiam do padrão idealizado.

O processo de demonização do feminino, fundamentado em discursos religiosos e amplificado por estruturas culturais, consolidou um modelo de subalternização da mulher que atravessa os séculos. A compreensão desse processo é fundamental para o enfrentamento das formas contemporâneas de misoginia, muitas vezes naturalizadas sob o manto da tradição ou da moralidade religiosa. Ao desvelar os mecanismos simbólicos e discursivos que sustentam essas estruturas, abre-se espaço para novas leituras, mais equitativas e emancipadoras, da história e do papel da mulher na sociedade.

Referências Bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. BOUREAU, Alain. Satan, hérésie et sorcellerie. Paris: Gallimard, 2016.

DUBY, Georges. As mulheres do Ocidente: da Idade Média ao século XVIII. Lisboa: Estampa, 1989.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2014. LE GOFF, Jacques;

TRUONG, Nicolas. Uma história do corpo na Idade Média. Rio de Janeiro: Record, 2006.

 LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

BLOCH, Marc. A sociedade feudal. Lisboa: Edições 70, 1995.

KRAMER, Heinrich; SPRENGER, Jacob. Malleus Maleficarum. 1486.

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

  A COMPLEXIDADE DA DEPRESSÃO: PERSPECTIVAS DA NEUROCIÊNCIA E DA PSICOLOGIA ANALÍTICA        A depressão é uma condição multifacetada que ...