Demonização do Feminino e
Discurso Religioso: Uma Análise Histórico-Simbólica da Subalternização da
Mulher no Ocidente
Das
raízes históricas e simbólicas da associação entre o feminino e o mal no
Ocidente, especialmente no contexto da religião cristão, a partir da análise do
Malleus Maleficarum (Kramer & Sprenger, 1486) e de fragmentos
bíblicos, busca-se compreender como o discurso “religioso” contribuiu para a
construção de uma imagem demonizada da mulher. A abordagem teórica
fundamenta-se nas contribuições de Pierre Bourdieu (poder simbólico) e Michel
Foucault (análise do discurso), além do conceito de cultura proposto por
Clifford Geertz. Tais discursos legitimaram
estruturas de dominação patriarcal, moldando práticas sociais e imaginários
coletivos que ainda reverberam na contemporaneidade.
As representações do feminino ao
longo da história, sobretudo em seu campo de interação com a religião, estão marcadas
por construções simbólicas e discursivas que consolidaram uma associação da
mulher com o mal. Essa associação é amplamente visível em mitos, narrativas
religiosas e estruturas sociais que perpetuam a misoginia. Aqui temos como objetivo analisar como se
estruturou o discurso de inferiorização da mulher no Ocidente, tendo como eixo
central a obra Malleus Maleficarum, publicada em 1486, e os discursos
dos tribunais do Santo Ofício durante a Inquisição.
Demonização
do Feminino na Tradição Cristã
A
ligação entre mulher e pecado encontra sua base na narrativa bíblica do Pecado
Original, no livro de Gênesis, tem a figura de Eva como responsável pela queda
da humanidade onde consolidou-se como um símbolo arquetípico da culpa feminina.
Essa interpretação foi reiterada por tratados de demonologia medievais, que reforçaram a imagem da mulher como aliada do
demônio e agente da desordem moral e espiritual.
Cultura
e Repetição de Significados
A
disseminação dessas ideias não ocorreu de maneira isolada, mas foi sustentada e
propagada pela cultura, compreendida como um sistema de significados
partilhados que orienta práticas, crenças e valores. A cultura, nesse sentido,
é o meio pelo qual os discursos encontram eco e se tornam instrumentos de
estruturação social.
A misoginia, portanto, não se resume a um
fenômeno religioso, mas cultural, na medida em que molda normas, papéis e
expectativas sociais.
Subalternização
e Poder Simbólico
Pierre
Bourdieu (1989; 2002) oferece instrumentos teóricos para compreender como tais
discursos se cristalizam em estruturas simbólicas de dominação. A noção de
poder simbólico revela como a autoridade masculina se legitima como natural ou
divina, enquanto o feminino é relegado à inferioridade. Essa estrutura é
reforçada por práticas institucionais, discursos religiosos e modelos
normativos de comportamento.
Discurso e
Hierarquia de Gênero
A
análise do discurso, conforme proposta por Michel Foucault (1996), permite
entender como os discursos religiosos participaram da construção da ordem
simbólica das coisas, instituindo hierarquias entre masculino e feminino. A
mulher subversiva — a bruxa, a herege, a sábia — torna-se alvo de perseguição
por representar uma ameaça à ordem estabelecida. Os fragmentos do Gênesis e o
conteúdo do Malleus Maleficarum foram amplamente utilizados como
fundamentação para justificar a submissão feminina e a eliminação daquelas que
fugiam do padrão idealizado.
O processo de demonização do feminino, fundamentado em discursos
religiosos e amplificado por estruturas culturais, consolidou um modelo de
subalternização da mulher que atravessa os séculos. A compreensão desse
processo é fundamental para o enfrentamento das formas contemporâneas de
misoginia, muitas vezes naturalizadas sob o manto da tradição ou da moralidade
religiosa. Ao desvelar os mecanismos simbólicos e discursivos que sustentam
essas estruturas, abre-se espaço para novas leituras, mais equitativas e
emancipadoras, da história e do papel da mulher na sociedade.
Referências
Bibliográficas
BOURDIEU, Pierre. O poder
simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
BOURDIEU, Pierre.
A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. BOUREAU,
Alain. Satan, hérésie et sorcellerie. Paris: Gallimard, 2016.
DUBY, Georges. As mulheres
do Ocidente: da Idade Média ao século XVIII. Lisboa: Estampa, 1989.
FOUCAULT, Michel. A ordem do
discurso. São Paulo: Loyola, 1996.
GEERTZ, Clifford. A
interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2014. LE GOFF, Jacques;
TRUONG, Nicolas. Uma
história do corpo na Idade Média. Rio de Janeiro: Record, 2006.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um
conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
BLOCH, Marc. A sociedade
feudal. Lisboa: Edições 70, 1995.
KRAMER, Heinrich; SPRENGER,
Jacob. Malleus Maleficarum. 1486.
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