A
IMPORTÂNCIA DOS RITOS NO DESENVOLVIMENTO PESSOAL
Os mitos antigos foram concebidos para
harmonizar a mente e o corpo. A mente pode divagar por caminhos estranhos,
querendo coisas que o corpo não quer. Os mitos e ritos eram meios de colocar a
mente em acordo com o corpo, e o rumo da vida em acordo com o rumo apontado
pela natureza (Campbell, Joseph; O poder do mito; pg. 83)
A prática de rituais acontece desde os
primórdios. Sua importância encontra-se no seu desenvolvimento e
imposição silenciosa e subjetiva aos participantes, desde as sociedades mais
simples até nas mais complexas. Sua aceitação e repetição é uma
demonstração da própria necessidade de sua existência, sendo que a múltipla
significação desses eventos pode ser explicada pelas características,
necessidades e evolução de cada sociedade. Não se pode negar a eficácia do
ritual para demonstrar sentimentos coletivos, como símbolos míticos, ou
determinadores de alguma essência religiosa.
O que sabemos, porém, é que as crenças,
ritos, rituais e cultos são efetivados e sentidos de diferentes formas e
contribuem essencialmente para a formação e educação das pessoas. É
através deles, que são elaborados e adquiridos os conhecimentos, ampliam-se
representações. O indivíduo progride através de uma série de iniciações,
que abrem o seu interior para uma profundidade de si mesmo cada vez maior, até
que chega um momento em que se dá conta de que é, ao mesmo tempo, mortal e
imortal, macho e fêmea, de que há uma ambiguidade intrínseca e inerente a si
mesmo.
Quando pensamos em ritos,
acredito que muitos têm em mente o que há de mais comum em nossas sociedades,
como uma missa por exemplo. A missa é considerada o ápice ritual da igreja
católica, um momento para reviver, rememorar a morte e ressurreição do cristo,
e subjetivamente o que se diz é que estamos renovando nossos votos e estamos
sendo perdoados por nossas faltas para assim estarmos aptos a comungar com o
transcendente sendo dignos de tal, poder-se-ia dizer que é um rito de revisão
de nossas vidas cotidianas e que pode ser vivenciado a qualquer momento e em
todas as idades de nossas vidas, é um ritual que se bem compreendido nos dirige
a olharmos para nós mesmos e admitirmos nossas faltas, sejam elas bobas ou
graves e nos faz pensar em sermos cada vez melhor, tomando por exemplo a
própria vida do cristo, é através do ritual, que se
atinge aquela dimensão que transcende a temporalidade, aquela dimensão da qual
a vida provém e para a qual retorna.
Há ritos em todas as crenças e todas as
épocas, contendo as mais diversas finalidades, e há nos ritos uma riqueza de
simbologia e significado imprescindíveis para o desenvolvimento da psique
humana. Porém, hoje os ritos são muito mais amenos do que foram na antiguidade,
e é preciso um esforço muito grande, especialmente por parte dos homens, para
compreender que partiram de um estado para outro em suas vidas. Se tomarmos
como exemplo o desenvolvimento físico para compreendermos os mitos envoltos nos
ritos, podemos usar a menstruação: quando uma moça menstrua pela primeira vez,
já concebe em sua consciência que está se tornando mulher, que a partir desse
momento terá de ter mais cuidado consigo mesma e que já é apta a gerar uma
vida. A menstruação, então, é um rito de passagem natural, onde a menina agora
se torna mulher.
Esse processo simbólico carrega uma função
estruturante para a psique, pois os ritos de passagem atuam como marcadores de
transformação que ajudam o indivíduo a integrar as mudanças internas com os
contextos sociais e culturais em que está inserido. No entanto, com o declínio
dos ritos tradicionais nas sociedades contemporâneas, muitos desses processos
tornam-se inconscientes ou fragmentados, dificultando o reconhecimento
subjetivo das transições existenciais. Na ausência de rituais claros, muitos
sujeitos experiência crises de identidade, sentimentos de vazio ou confusão em
momentos cruciais da vida, como a adolescência, a maternidade ou o
envelhecimento.
A psicologia analítica reconhece a
importância dessas experiências simbólicas e propõe a reintegração do
significado arquetípico dos ritos por meio da amplificação de imagens e
narrativas, favorecendo um reencontro do ego com o Self ao longo dos ciclos da
vida. Nesse contexto, o espaço terapêutico se configura como um local
privilegiado para a ressignificação dos ritos perdidos, onde o sofrimento
psíquico pode ser compreendido como expressão de uma travessia simbólica não
reconhecida. O terapeuta, ao acolher as imagens do inconsciente e auxiliar na
construção de sentido, atua como um facilitador dessa jornada iniciática.
Como apontou Mircea Eliade (2001), os ritos de
passagem não apenas marcam as transições entre os estados da vida — como
nascimento, puberdade, casamento e morte — mas também têm a função de
reintegrar o indivíduo ao cosmo, conferindo-lhe um novo status ontológico. Para
Eliade, esses rituais simbolizam a "morte" de uma identidade anterior
e o "renascimento" em uma nova forma de ser, operando uma
transformação não apenas social, mas profundamente espiritual e psíquica. A
ausência desses ritos nas sociedades modernas, segundo ele, promove um
sentimento de desenraizamento existencial, pois rompe a continuidade simbólica
entre o humano e o sagrado. Ao resgatar essas estruturas arquetípicas em
contextos terapêuticos, cria-se a possibilidade de restaurar essa conexão e
reintegrar o indivíduo à totalidade do seu ser.
Referência
bibliográfica:
Campbell,
Joseph, 1904-1987. O poder do mito/Joseph Campbell, com
Bill Myers; org. por Betty Sue Flowers; tradução de Carlos Felipe Moisés. -São
Paulo: Palas Athena, 1990
ELIADE, Mircea.
A provação do labirinto: diálogos com Claude-Henri Rocquet. Lisboa: Publicações
Dom Quixote, 1987
Jung.
Carl. Gustav, Espiritualidade e
Transcendência. Petrópolis, RJ. Vozes. 2015
Jung.
Carl. Gustav, O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro,
Harper Collins, 2016
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