terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

TRANSTORNO DE PERSONALIDADE NARCISISTA




         As percepções e comportamentos dos pacientes narcisistas são resultados de um processo que se inicia desde a primeira infância, onde o comportamento abusivo dos responsáveis fragmenta e corrompe o processo de maturação do self, gerando dissociação entre as partes interiores do si mesmo, que afeta principalmente a busca por admiração e referencias. Ora, todo movimento infantil sempre tende aos seus responsáveis, que deveriam ser os objetos de referencia e proporcionadores de admiração para o individuo em desenvolvimento. No entanto, quando as desordens internas destes "adultos" acabam por imprimir suas percepções distorcidas aos mais frágeis e dependentes destas relações, consequentemente conduzem o individuo em desenvolvimento a uma busca prejudicial por admiração e aceitação de outros indivíduos tão desequilibrados quanto estes responsáveis. Embora tais contextos possam plasmar diversas tensões psíquicas e suas consequências, nem todo individuo padecedor destas dinâmicas relacionais está fadado ao modus operandi narcisista, mas todo comportamento narcisista é fruto destas relações abusivas. 

        Por outro lado, o comportamento do narcisista não depende exclusivamente desta realidade apartada das demais dinâmicas do processo de desenvolvimento, pois, dependendo das circunstancias, as tendências narcísicas podem ser atenuadas ou acentuadas, a ponto de gerar traumas mais ou menos graves no individuo padecedor deste processo, segundo sua sensibilidade diante da situação traumática. Esta suscetibilidade ao trauma, por sua vez, é devida a interação de de uma pré-disposição genética e experiências anteriores ao trauma patogênico específico (ou seja, durante a gestação).

Diante das experiências terapêuticas, é comum observar os seguintes  traços de personalidade manifesta no individuo: a perda de humor, perda de empatia a respeito das necessidades e sentimentos dos demais, perda no sentido de proporção diante das situações, tendência a ataques descontrolados de ira e mentira patológica. Com isso, acredita-se que os indivíduos com perturbações narcísicas estão presos a um estágio do desenvolvimento onde necessitam de respostas específicas do ambiente para manter o self harmônico. 

          Segundo Kohut (1971, 1977, 1984), o self narcisista  age como um self arcaico “normal”, que está preso, congelado em seu desenvolvimento, como se fosse uma criança num corpo adulto. Daí sua expressão: o adulto esta prisioneiro da criança, esperando por respostas de aprovação. Quando estas respostas não ocorrem, tais indivíduos apresentam forte tendência a fragmentação do self; quadro entendido como resultante de falta de empatia por parte dos pais ao exibicionismo adequado a fase em que se encontravam as crianças, necessitadas de aprovação e admiração, não oferecendo, desta forma, experiências de identificação com outro igual e modelos dignos de serem idealizados. Esta falta de empatia resulta na tendência a estabelecer a transferência gemelar, especular ou idealizadora

        Os pacientes com transtorno de personalidade narcisista identificam-se com sua imagem idealizada do self para negar sua dependência de objetos externos (outras pessoas), bem como das imagens internas destes objetos. Ao mesmo tempo negam os padrões inaceitáveis de suas próprias imagens do self, projetando-as nos outros. Costumam estabelecer dois tipos de transferência, especular e idealizadora; através deste tipo de disposições transferenciais, lutam com dificuldade, com um self defeituoso ou deficiente, cujo desenvolvimento congelou em um ponto altamente sensível a fragmentação. 

         O não reconhecimento do outro às demandas de acolhimento se dá pela recusa ou pela falta de condições de ser transformado em objeto de atendimento; isto propicia a desilusão com o outro. A desilusão não permite o processo de idealização necessário para a transformação das configurações narcísicas. Como o foco dos modelos narcísicos da cultura se forma em torno da grandiosidade e da idealização, o encontro, que é uma necessidade básica para a vitalização do self, tende a tornar-se efêmero, descartável. Assim, o retorno a si mesmo não é uma defesa nem um ataque ao outro externo, mas o caminho possível para a manutenção da própria sobrevivência.


Tratamento para o transtorno:

         Como já citado acima, credita-se que os indivíduos com perturbações narcísicas estão presos a um estágio do desenvolvimento onde necessitam de respostas específicas do ambiente para manter o self em concordância e harmonia, o tratamento psicoterapêutico é baseado na interpretação e elaboração das transferências narcísicas e tem por objetivo, o fortalecimento do self enfraquecido, possibilitando, assim, o desenvolvimento normal da libido narcísica, de modo que o indivíduo possa tolerar experiências de objetos do self menos satisfatórias sem perda significativa da auto compatibilidade. 

        Visa-se fortalecer o self para que possa se afastar da necessidade de objetos do self arcaicos (infantil), e desenvolver a habilidade de utilizar objetos do self mais maduros e adequados. Do ponto de vista terapêutico, este paciente é uma pessoa com necessidade de um objeto capaz de prover as próprias condições para a correção de representações distorcidas de objeto e da internalização de funções deste objeto, como pré-condição para que uma posterior diferenciação estrutural possa ocorrer. 

        "O objetivo mais apropriado do tratamento seria alcançar um narcisismo transformado, isto é, uma redistribuição da libido narcísica do paciente, bem como a integração das estruturas psicológicas primitivas à personalidade mais madura" (Kohut, 1984). 

        Kohut, com um olhar mais esperançoso, positivou o conceito e criou uma teoria e técnica para seu entendimento e transformação, localizando a gênese dos distúrbios narcísicos nas quebras empáticas das experiências self objetais, como a base da sua clínica foi unidirecional, do self objeto para o paciente, não inseriu esses distúrbios no contexto em que emergiam, mas elaborou possibilidades clínicas que, hoje atualizadas, permitem a esperança no vir a ser.


Referências bibliográficas:

Bastos, C. A. M. - A criança e a família – vicissitudes na constituição do narcisismo e da vincular idade. In: GRANA, R. B. & PIVA, A. - A Atualidade da Psicanálise de Crianças: Perspectivas para um Novo Século. Porto Alegre, Casa do Psicólogo, 2001. 

Bleichmar, N. e Bleichmar, C. L. - A Psicanálise Depois de Freud: Teoria e Clínica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992. 

FREUD, S. - Edição Eletrônica das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. 

GABBARD, Gil. O. - Psiquiatria Psicodinâmica. 2ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. 

Kohut, H. (1984a). Formas e transformações do narcisismo. In H. Kohut, Self e narcisismo (P. H. B. Rondon, Trad., pp. 7-38). Rio de Janeiro: Zahar. (Trabalho original publicado em 1966).

Kohut, H. (1984b). O tratamento psicanalítico das perturbações narcísicas da personalidade: esboço de uma abordagem. In H. Kohut, Self e narcisismo (P. H. B. Rondon, Trad., pp. 39-68). Rio de Janeiro: Zahar. (Trabalho original publicado em 1968). 

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